
Sou um grande admirador do escritor mineiro, falecido em 2004, Fernando Sabino. Leio seus livros desde criança. De vez em quando, pego um antigo exemplar para reler e me divirto sempre. Preciso tomar cuidado para não ler Fernando Sabino em público para não ser considerado maluco devido às risadas que, confesso, não consigo segurar, mesmo lendo novamente um livro já relido várias vezes.
Em 1991 ele decidiu escrever a biografia romanceada da então ministra da economia do presidente Collor, Zélia Cardoso de Melo. Não entendi aquilo. Onde estava aquele Fernando Sabino que havia criticado tão duramente Collor quando ainda era candidato, em uma histórica entrevista ao programa Roda Vida, da TV Cultura, em 1989?
Como um homem tão experimentado, mineiro de Belo Horizonte, amigo de Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende decide escrever sobre Zélia? Ainda mais sobre toda aquela história sórdida do romance com Bernardo Cabral e os detalhes escabrosos dos bastidores da política brasileira na época?
Por causa da repercussão catastrófica do livro, Fernando Sabino passou os últimos anos da sua vida recolhido, magoado com seus críticos e, imagino, profundamente arrependido daquele tropeço. Foi defendido por poucos amigos (entre os quais, o escritor Jorge Amado), mas massacrado por quase todo mundo mais.
O que levou Fernando Sabino, um homem inteligente, com uma carreira brilhante como escritor, autor de “O Encontro Marcado”, a cometer mancada tão grave aos quase setenta anos de idade?
Minha “explicação” é que nós seres humanos possuímos um potencial inesgotável para fazermos as coisas mais estúpidas em qualquer momento de nossas vidas. Fernando Sabino encantou-se com Zélia, com sua personalidade, com o fato de ser mulher e ministra, com sabe-se lá o quê. Encantou-se a ponto de perder a noção de como seu projeto literário o levaria a uma situação de ridículo.
Ao pensar em Fernando Sabino, não sinto desprezo, sinto medo. Se ele escorregou como escorregou, o que será de mim? Não me sinto mais seguro por estar ficando mais velho. Sei que a maturidade física não é garantia de não se fazer bobagem.
Volta e meia me lembro dessa história e me questiono, como quem tenta antever um passo em falso, como um exercício de autodesconfiança permanente: o que poderá vir a ser a minha Zélia?
Que Deus me livre dela e que Ele me livre de minha própria estupidez.





