12/11/2009

Essa Coisa Maravilhosa Chamada Igreja


Ilustração: Jasiel Botelho

Existe todo tipo de igreja: igrejas “terapêuticas” e igrejas doentes, igrejas que praticam a graça e igrejas legalistas, igrejas castradoras e libertadoras, etc, etc, etc.

Há centenas de livros criticando a igreja. Dependendo do motivo e da igreja, tem que criticar mesmo! (vide Apocalipse 2 e 3)

Mas hoje quero falar do lado bom da igreja. Eu gosto da igreja. Já vivi mais tempo de minha vida dentro da igreja do que fora dela. Quando falo da igreja não me refiro a um prédio, mas a uma comunidade de gente imperfeita e resgatada por Cristo.

Quando me converti, logo fui para uma igreja, pois o NT que eu lia dizia no final que “se você aceitou Jesus como Senhor e Salvador de sua vida, procure uma igreja evangélica”. Fui para a igreja que meu avô freqüentava.

O pastor era tradicional, os sermões eram belas peças de oratória mas com muito pouco conteúdo em termos do que chamaríamos hoje de “exposição bíblica”. Cantávamos hinos que naquele tempo eu não gostava. Foi um choque cultural.

Mesmo assim permaneci naquela igreja. Nela fui acolhido, nutrido, integrado e muita coisa boa aconteceu na minha vida. Até que chegou o dia em que entendi que Deus me queria no Rio Grande do Sul e vim para cá por causa de outra igreja.

Estou há dezoito anos nesta igreja. Há muita coisa boa e muita coisa ruim. Há momentos de alegria e de tristeza. Há momentos de edificação e momentos de escândalo. Mas a igreja é o lugar de Deus para mim.

É somente na vivência com outros cristãos que amadurecemos. A igreja nos ensina a sermos tolerantes e humildes. Aprendemos que os pastores e membros que nos ministram não são lá grande coisa, mas por incrível que pareça, Deus fala comigo quando ouço as pregações ou me reúno em uma célula.

As pessoas com quem convivo são ao mesmo tempo um desafio e uma bênção para mim – e vice-versa. Na convivência aprendemos a nos aceitar, perdoar e aparamos nossas arestas. Quando perseveramos na vivência da comunidade, crescemos. Eu diria que nós só crescemos na experiência humana e dolorosa da comunidade.

Os evangelhos foram escritos para igrejas. Neles lemos como Jesus formou uma comunidade de doze apóstolos e de mais de setenta discípulos que formaram o embrião da igreja primitiva. Jesus mesmo disse: “edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la” (Mateus 16:18). Cristo é o criador da igreja.

O livro de Atos mostra o nascimento, o sofrimento e a expansão da igreja.

As cartas foram dirigidas a igrejas locais. Mesmo Filemom, que era uma carta pessoal, foi escrita em um contexto de comunidade.

E o Apocalipse? O último livro da Bíblia é, na verdade, um livro-carta dirigido a sete igrejas!

Do começo ao fim o NT nos aponta para a igreja local como a comunidade onde vivenciamos nossa fé em Jesus, que nos desafia, nutre e nos envia para sermos sal e luz no mundo.

Faço minhas as palavras de John Stott: “espero que meus leitores não sejam aquela anomalia grotesca que se constitui um cristão que não pertence a uma igreja”!

Se você não faz parte de uma comunidade de Jesus, procure uma. Se você faz parte de uma, não saia dela, a não ser por motivos razoáveis, depois de consultar pessoas maduras. Em seguida, busque imediatamente outra comunidade.

Não viva sem essa coisa maravilhosa chamada igreja.

30/10/2009

Eu tenho dúvidas, mas não duvido


Imagem: quadro do pintor italiano Caravaggio, retratando a dúvida de Tomé

Quando criança eu queria ser cientista. Meu sonho era ter um laboratório na área de serviço onde morávamos, num pequeno apartamento no bairro da Vila Belmiro, em Santos. O sonho não se concretizou, primeiro porque os kits de laboratório de brinquedo eram raros e caros naquela época e, segundo, porque minha mãe precisava de espaço para lavar e pendurar roupas!

Quando me converti, cria – e creio – que a Bíblia era a Palavra de Deus. Mas não uma Palavra que significa qualquer coisa. Creio que há linhas de interpretação diferentes, mas isso não significa que se possa fazer a Bíblia dizer qualquer coisa. Há uma crença popular que afirma que “cada um tem a sua interpretação da Bíblia”. Não é bem assim. Há maneiras diferentes de se interpretar, mas algumas delas são inaceitáveis do ponto de vista de um estudo sério do texto bíblico. Por exemplo, é inaceitável dizer que Jesus falou de reencarnação quando disse a Nicodemos que ele precisaria “nascer de novo” (João 3:3).

Ao longo de minha caminhada na fé, tenho colecionado uma série de dúvidas. Minha primeira grande dúvida foi o problema do sofrimento: por que Deus permite o mal? Por que Deus permite que o inocente sofra? Por que Deus permite os abortos e as guerras? Por que uma bala perdida pode atingir e matar uma criança que estava brincando?

Outras dúvidas: como relacionar Deus como Criador e a evolução? Como entender que pessoas que nunca ouviram o evangelho serão condenadas? Por que Deus permite que uma criança míngüe até a morte por inanição na África? Por que Deus permitiu o holocausto?

Tenho aprendido que não precisamos fazer um suicídio intelectual para crer em Deus. Questões científicas e filosóficas podem ter repostas, ainda que incompletas. Nunca entenderemos tudo pelo simples fato de sermos seres finitos em um universo que nunca poderá ser plenamente entendido por nós. Os planos de Deus são incompreensíveis (Romanos 11:33-34).

Também tenho aprendido que ter dúvidas não tem nada a ver com duvidar. Ter dúvidas é questionar nossa compreensão atual das coisas, procurar novas perspectivas ou paradigmas, dar-se a liberdade de dizer que não podemos entender certas coisas, pelo menos por enquanto. Duvidar é fechar-se para Deus, questionar a sua realidade, tornar-se reducionista em nossa visão dEle e do mundo. Um exemplo clássico é Richard Dawkins dizendo que a evolução elimina Deus. Tolice. Há milhares de cientistas sérios que crêem em Deus e que acreditam que Ele usou o processo evolutivo para criar o universo. Mais sábio que Dawkins é nosso conterrâneo João Ubaldo Ribeiro. Veja o que ele disse aqui.

Vou continuar com minhas dúvidas até morrer, procurando sempre entender melhor a realidade e relacioná-la com a Bíblia como Palavra de Deus. Mas me recuso a duvidar porque creio que em Cristo “tudo subsiste” e porque creio que nEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Colossenses 1:17 e 2:3).

16/10/2009

O Mês da Danada

Tradicionalmente outubro é o mês em que experimento uma leve depressão. Depois de muitos anos percebi que neste mês fico down. Já pensei e conversei com outras pessoas sobre os possíveis motivos e minha conclusão leiga – já que nunca consultei um psiquiatra – é de que se trata de uma depressão sazonal causada por um longo período de pouca exposição ao sol.

Não, não moro no exterior. Moro na cidade de Caxias do Sul, que amo de coração, cidade natal de minha filha mais velha. Mas ô cidadezinha nublada, fria e chuvosa! Como o inverno se arrasta e teima em não terminar! O calor sofre pra chegar aqui.

O pouco sol, o fim do inverno, algumas frustrações normais que todo ano me acometem (pois em outubro a gente já começa a avaliar o ano e vê o que não foi feito, o que terá que ficar para o ano que vem)...

Em suma, creio que há uma diminuição na produção de serotonina que me deixa levemente desanimado e triste. Há dias em que nem a percebo. Mas há também os dias ruins.

O bom da história é que, como acontecem todos os anos, de repente me dou conta de que outubro acabou-se. E com ele, foi-se a danada.

09/10/2009

Em Defesa de Francisco



“Pregue sempre o evangelho. Se necessário, use palavras” (atribuído a Francisco de Assis)

Depois que ouvi pastores criticarem esta frase de Francisco, decidi escrever um breve comentário.

Alguns dizem, irritados, que Francisco nunca disse tais palavras, pois não há documentos antigos que comprovem tal declaração. Não sou um especialista em Francisco de Assis, não sei se de fato a frase é dele ou se é espúria. Sei que a frase cairia muito bem na boca de Francisco.

Quem conhece um pouco da história de Francisco sabe que o povereto foi inovador. Ao invés de viver como monge, ele ia ao encontro das pessoas nas ruas e vilas. Não vivia isolado (isolou-se mais no final de sua vida), era pregador do evangelho e chegou a ser missionário aos muçulmanos.

Na época o papa, os cardeais e bispos viviam uma vida luxuosa e mundana. O impacto de Francisco se deu pelo contraste entre sua vida de pobreza, alegria, serviço e simplicidade comparada ao luxo e à politicagem do alto clero católico.

É neste contexto que devemos entender a frase: “Pregue sempre o evangelho, se necessário use palavras”. Trata-se de uma frase de efeito e não um conselho para se falar menos do evangelho ou para se pregar o evangelho “apenas com seu testemunho de vida”.

Com certeza o maior mal dos evangélicos hoje em dia é a incoerência entre nosso discurso e nossa prática. As pessoas sequer nos ouvem porque nossa vida é muito pouco ou nada diferente da vida de todo mundo. Somos imorais, gananciosos e fúteis.

Desconfio que, se comparados com Francisco, pregamos muito menos com palavras e vivemos ainda menos com obras o evangelho!

“Pregue sempre o evangelho, se necessário use palavras”.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.